Avanço da celulose e bioenergia redesenha matriz econômica do agronegócio em Mato Grosso do Sul
Estado consolida transição de modelo voltado a pastagens para polo agroindustrial, com expansão de novas culturas e cadeias integradas
O perfil econômico de Mato Grosso do Sul atravessa uma transição estrutural. O modelo historicamente escorado na pecuária extensiva e na exportação de grãos in natura cede espaço a uma matriz diversificada, na qual a produção agrícola é absorvida e transformada por um parque industrial local antes de cruzar as divisas do Estado.
A mudança de escala é ancorada no adensamento das cadeias de celulose e bioenergia, além do avanço de culturas como amendoim e citricultura. Atualmente, o Estado opera 22 usinas de bioenergia, responsáveis pela produção de mais de 4 bilhões de litros de etanol anuais — um arranjo que já integra cana-de-açúcar e milho, com ramificações recentes para a geração de biogás e biometano.
Na frente florestal, o epicentro do movimento está em Ribas do Rio Pardo, que abriga a maior linha única de produção de celulose do mundo. A planta da Suzano, fruto de um investimento que superou a marca de R$ 22 bilhões, possui capacidade instalada para processar 2,55 milhões de toneladas por ano. A capilaridade desse aporte reflete-se no surgimento de complexos satélites em municípios como Três Lagoas, onde novos capitais têm aportado com foco no fornecimento de insumos para as fábricas consolidadas na região.
A diversificação produtiva também altera fisicamente o mapa agrícola estadual. Até maio de 2026, a área destinada à laranja já se aproximava dos 35 mil hectares, chancelando a região como uma das novas fronteiras da citricultura nacional. Apenas em Ribas do Rio Pardo, um projeto singular concentra mais de 5 mil hectares da fruta.
Trajetória semelhante é registrada no cultivo do amendoim. A safra 2024/25 marcou um salto de 176,3% na produção sul-mato-grossense em relação ao ciclo anterior, ultrapassando 56 mil toneladas e alçando o Estado à segunda posição no ranking produtivo do país. O volume atrai de imediato o próximo elo da cadeia de valor: Nova Alvorada do Sul tem previsão de receber uma nova indústria de beneficiamento orçada em R$ 30 milhões.
O forte adensamento industrial alcança, igualmente, as vocações mais antigas do Estado. Os bovinos, além da proteína convencional, abastecem diretamente as indústrias moveleira e automotiva com o fornecimento de couro, enquanto o sebo animal é redirecionado à fabricação de biodiesel. Paralelamente, os setores de aves, tilápias e suínos passam por expansões estratégicas em plantas de processamento baseadas em polos como Dourados e São Gabriel do Oeste.
Para o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, a convergência entre campo e fábrica comprova que não há concorrência territorial. "A indústria não chegou para disputar espaço com o produtor rural. Pelo contrário, ela agregou valor aos nossos produtos e abriu novos mercados", afirmou.
O rearranjo de forças no campo corrobora a tese de otimização do uso do solo. Nos últimos 15 anos, o espaço ocupado por pastagens em Mato Grosso do Sul recuou de aproximadamente 23 milhões para 18 milhões de hectares. O avanço da agricultura deu-se majoritariamente sobre estas áreas antes concentradas na pecuária, movimento ocorrido em compasso com o aumento das tecnologias de intensificação produtiva no próprio setor pecuário.
Levantamentos baseados no MapBiomas indicam que as pastagens categorizadas como de baixo vigor caíram pela metade, passando de 6,2 milhões de hectares em 2010 para 2,9 milhões em 2024. Ao mesmo tempo, mais de 300 mil hectares de áreas foram regenerados, prioritariamente dentro de propriedades privadas, conforme aponta Marcelo Bertoni, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul).
Nesse cenário, a própria conservação passa a ser precificada. Para o produtor rural Leonardo Leite de Barros, as políticas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) alteram a lógica de rentabilidade ao monetizar o bioma preservado. Segundo o produtor, o reconhecimento do Estado torna-se um fator "muito maior do que a questão monetária".
As etapas seguintes dessa integração preveem o fortalecimento da segurança hídrica — por meio da estruturação de um amplo projeto de incentivo à irrigação no Estado — e a exploração do mercado de carbono atrelado ao modelo de PSA. Mais do que trocar culturas, a atual fase do agronegócio sul-mato-grossense indica uma tentativa de multiplicar a capacidade produtiva da mesma base territorial, garantindo que o valor adicionado permaneça no Estado.
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