Mato Grosso do Sul atinge 66% de alfabetização infantil
Programa estadual impulsiona resultados educacionais medante capacitação de professores e integração com prefeituras, enquanto o desafio da retenção na primeira infância persiste nas salas de aula
O índice de crianças alfabetizadas na idade adequada em Mato Grosso do Sul alcançou o patamar de 66%, de acordo com os dados oficiais divulgados em março de 2026. A marca representa um salto expressivo em relação aos 47,4% consolidados em 2023. Essa evolução estatística no Estado está diretamente ancorada no MS Alfabetiza, programa instituído em 2021 que estrutura um regime de colaboração operacional entre a gestão estadual e as 79 administrações municipais. Contudo, os mesmos indicadores que atestam a eficácia da política pública evidenciam seu maior obstáculo: cerca de uma em cada três crianças sul-mato-grossenses ainda encerra o segundo ano do Ensino Fundamental sem dominar competências básicas de leitura e escrita.
A estratégia do governo estadual, sob o comando do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, volta-se para a base do sistema de ensino com o intuito de estancar a acumulação de deficiências pedagógicas. O diagnóstico educacional demonstra que alunos sem fluência na leitura enfrentam dificuldades crônicas para assimilar áreas fundamentais, como matemática, história e ciências naturais, o que frequentemente resulta em evasão e menor qualificação para o mercado de trabalho. "Educação é um dos focos da nossa gestão", pontuou o governador, sublinhando que a capilaridade das prefeituras tem sido essencial para os ganhos operacionais da medida.
O ritmo de recuperação adotado pelas escolas já havia colocado Mato Grosso do Sul em destaque nacional. Apenas no intervalo entre 2023 e 2024, a taxa de alfabetização subiu de 47,4% para 55,8%. O avanço proporcional de 17% nesse período colocou a unidade federativa com o segundo maior índice de crescimento no país, ultrapassando a meta local estipulada em 52,8%. Como reflexo institucional do cumprimento das metas, o Governo do Estado e 43 dos seus municípios foram chancelados neste ano com o Selo Ouro Nacional do Compromisso com a Alfabetização.
Longe dos relatórios governamentais, a eficácia do ensino reflete um complexo processo de nivelamento sociodemográfico nas salas de aula. Diferenças de renda, escolaridade dos pais e histórico na Educação Infantil ditam as regras da adaptação escolar. Na Escola Estadual Ulisses Serra, localizada na capital Campo Grande, o ingresso de estudantes ilustra como a relação humana precede o ensino formal.
Quando iniciou o primeiro ano do Ensino Fundamental, em 2025, o aluno Luiz Otávio demonstrou severa resistência à rotina escolar, ameaçando sua permanência na instituição. Sua mãe, Nilza de Souza Benevides, relata que a estabilidade do menino dependeu da abordagem da professora Anna Paula Pedrozo. "Ele chorava bastante e teve muitos problemas no começo. Ela soube acolhê-lo e trazê-lo para o mundo escolar", relembrou. Para a mãe, as ações integraram suporte emocional prático ao desenvolvimento da criança. "A pedagogia dela é muito boa. Ela ensinou muito bem o Luiz Otávio e ajudou bastante no desenvolvimento dele", destacou.
O vínculo criado no ambiente escolar gerou desdobramentos imprevisíveis que ultrapassaram a alfabetização infantil. Inspirada pelo método de ensino, Nilza ingressou no magistério e passou a ser aluna da mesma docente que estabilizou seu filho. "Tenho muito a agradecer à professora Anna Paula. Hoje tenho o prazer de estudar com ela e de tê-la como minha professora", celebrou a estudante.
Servidora estadual concursada há 21 anos, com treze deles dedicados exclusivamente às turmas de primeiro e segundo ano, Anna Paula baseia sua atuação no mapeamento contínuo da turma. "Realizo uma avaliação diagnóstica para conhecer a realidade de cada aluno e, em seguida, proponho atividades diferenciadas que favoreçam a participação de todos", explicou. Essa calibragem de rotina ganha suporte institucional através da formação continuada oferecida aos professores pelo programa estadual, mitigando o isolamento do trabalho docente.
"Ter um momento de pausa para realizar uma formação específica em alfabetização é fundamental. Ao dialogar com as colegas, percebo que nossas angústias são as mesmas", reconheceu a professora. A capacitação técnica tem como base principal o conceito do alfaletrar — uma diretriz pedagógica focada em aliar o ensino do sistema de escrita ao seu uso funcional e cotidiano. "Não se trata de um método rígido ou exclusivo. A proposta é ensinar letras, sons e o sistema de escrita ao mesmo tempo em que a criança vivencia práticas reais de leitura e escrita no cotidiano", esclareceu a educadora. "Quando ficamos focadas apenas na própria sala, torna-se mais difícil implementar novas intervenções. No programa, conseguimos compartilhar experiências e conhecer caminhos didáticos viáveis para aplicar com os alunos", disse, acrescentando que "ao longo do programa, conseguimos colocar em prática muitas estratégias que, sozinha, eu dificilmente conseguiria criar".
O braço financeiro do MS Alfabetiza opera sob um regime de bonificação e subsídio técnico. Em 2025, o Prêmio Escolas Destaque repassou cerca de R$ 3,6 milhões destinados a unidades da rede pública. Foram destinados R$ 80 mil para cada uma das 30 escolas que obtiveram as melhores avaliações, ao mesmo tempo em que outras 30 instituições, identificadas com a necessidade de recomposição urgente, receberam aportes de R$ 40 mil. O objetivo orçamentário é aproximar escolas com realidades extremas e forçar o compartilhamento prático das melhores experiências de gestão.
Para Maria Gorete Siqueira Silva, coordenadora estadual da iniciativa, os índices corroboram a validade da estratégia unificada. "Os resultados refletem no avanço da alfabetização das crianças, no fortalecimento das práticas pedagógicas, no aperfeiçoamento da gestão escolar e na consolidação de uma cultura de acompanhamento e uso dos resultados educacionais para a tomada de decisões", avaliou.
Para além das estatísticas de aprovação formal, o horizonte da gestão aponta para a superação das disparidades regionais que limitam as avaliações globais. Alcançar as crianças em zonas rurais, áreas de fronteira e territórios indígenas impõe a necessidade de um diagnóstico capilarizado, exigindo acompanhamento individualizado para estudantes do terceiro ao quinto ano que carregam o peso da defasagem. A estrutura governamental encara a fase escolar inicial como fator decisivo na construção do indivíduo. Conforme definiu Eduardo Riedel, "a escola se torna, nesse sentido, a primeira ponte entre a origem familiar e o futuro que cada criança poderá construir".
Ao dimensionar o salto rumo aos 66% na atual base educacional do Estado, o chefe do Executivo manteve o tom pragmático sobre a fatia de alunos que continuam sem pleno domínio da linguagem. "O terço que permanece fora do padrão esperado mostra, ao mesmo tempo, quanto ainda existe por fazer", alertou o governador, demarcando a fronteira em que a política pública precisará atuar de forma intensiva nos próximos anos.
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