Creche particular em Nova Andradina suspende atividades após denúncias de agressões e uso de vinagre como castigo
Relatos de mães e ex-funcionária incluem crianças dormindo no chão, insalubridade e castigos físicos contra autistas; Polícia Civil investiga o caso
Nova Andradina (MS) — Um espaço particular de cuidado infantil encerrou temporariamente suas atividades nesta segunda-feira (21) sob investigação de maus-tratos. As denúncias, encaminhadas ao Ministério Público e à Polícia Civil, descrevem um ambiente de agressões, insalubridade e punições sistemáticas, incluindo a aplicação de spray de vinagre no rosto das crianças.
O Conselho Tutelar do município recebeu os primeiros relatos por diferentes canais na sexta-feira (18). Após acionar a Polícia Militar para uma averiguação inicial — que não constatou irregularidades aparentes no momento da visita —, o órgão levou o caso às autoridades investigativas e ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA).
O alvo das acusações é o Espaço Tia Lu, um estabelecimento que funciona em uma residência e oferece permanência temporária mediante contratação direta pelas famílias. A Prefeitura de Nova Andradina esclareceu que o local não possui vínculo com a administração municipal nem integra a Rede Municipal de Ensino.
Os relatos mais detalhados partiram de uma ex-funcionária, que registrou imagens e áudios durante os poucos dias em que trabalhou na casa. Ela descreveu a falta de itens básicos para o descanso, forçando algumas crianças a dormirem diretamente no chão, sobre tatames sujos. A higiene do local, segundo a testemunha, era precária, com banheiros inadequados, toalhas compartilhadas sem lavagem, carrinhos com restos de vômito e berços rasgados com forte cheiro de urina.
A testemunha relatou punições severas, com foco especial nas crianças autistas. O relato aponta que aquelas que faziam as necessidades na roupa tinham a peça íntima lavada dentro do vaso sanitário e eram ameaçadas pela proprietária com banhos de água gelada.
"Quando não dormiam, era borrifado um spray de vinagre em seus rostos, principalmente nos rostos das crianças autistas."
A aplicação do vinagre era uma punição recorrente, segundo a ex-funcionária. A proprietária também teria o hábito de forçar a alimentação, segurando o rosto das crianças de forma bruta até que apresentassem ânsia ou vômito. Crianças consideradas indisciplinadas seriam trancadas sozinhas em um quarto escuro por horas, expostas a agressões físicas diárias, como tapas na cabeça, puxões de cabelo e apertões.
Famílias que utilizavam o serviço corroboraram as suspeitas. Uma mãe relatou que o filho de nove anos foi agredido por outra criança no espaço em setembro de 2025, retornando com o olho roxo. O menino descreveu que grupos de idades variadas ficavam reunidos sem supervisão e tomavam banho juntos. A filha mais nova dessa mesma família, que permaneceu no local por mais tempo, apresentou mudança de comportamento, sonolência e episódios de choro desesperado ao ver a fachada do imóvel.
Outra família, cuja filha de três anos frequentava o ambiente desde os cinco meses de idade, começou a desconfiar após a criança apresentar machucados recorrentes. A justificativa inicial da proprietária apontava para mordidas de colegas, mas informações repassadas por terceiros revelaram que uma funcionária teria fechado a mão da menina em uma porta.
Diante da repercussão, o advogado Reinaldo Oliveira, representante da proprietária, comunicou a suspensão das atividades. Em nota oficial, o Espaço Tia Lu afirmou que pauta suas atividades pelo cuidado e respeito, colocando-se à disposição das autoridades. A defesa optou por não comentar os detalhes dos relatos sob a justificativa de preservar a privacidade dos envolvidos.
A Polícia Civil informou que, até o momento, apenas uma mãe compareceu à delegacia para ser formalmente identificada e prestar depoimento. A corporação orienta que outras famílias e testemunhas procurem a Delegacia de Polícia de Nova Andradina munidas de fotos, vídeos ou outros registros materiais que possam auxiliar no andamento das investigações e na identificação de eventuais responsáveis.
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