MP recorre para reverter soltura de adolescentes investigados por induzir morte de menina em Naviraí
Operação Lívia aponta que grupo agia de forma coordenada, utilizando escravização virtual para forçar vítimas à automutilação em transmissões ao vivo.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) acionou o Tribunal de Justiça do estado para tentar reverter a liberação de cinco adolescentes suspeitos de envolvimento na morte de uma menina de 13 anos. A vítima, moradora de Naviraí, foi induzida ao suicídio em julho, após ser submetida a pressões psicológicas e desafios violentos orquestrados em grupos virtuais.
Os menores haviam sido apreendidos em 4 de agosto, durante a primeira fase da Operação Lívia, mas receberam autorização judicial para deixar a internação na última semana, em 16 de setembro, devido ao fim do prazo estipulado para a medida cautelar.
A 4ª Promotoria de Justiça de Naviraí, responsável pelo recurso apresentado na terça-feira (22), argumenta que a gravidade dos fatos, a complexidade da rede e a necessidade de aprofundar provas técnicas justificam a manutenção dos jovens sob custódia. As investigações expõem uma estrutura com nítida divisão de tarefas, focada em captar adolescentes vulneráveis e submetê-los a comportamentos autodestrutivos.
A operação revelou ramificações extensas da quadrilha. Cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, além de um jovem de 18, foram os primeiros alvos em Mato Grosso do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro — estado onde foi apreendido o adolescente de 14 anos suspeito de chefiar a organização. Uma segunda fase já identificou outros seis menores envolvidos. Durante as buscas, agentes confiscaram celulares, computadores, armas e materiais de apologia ao neonazismo.
O núcleo operava abordando crianças e adolescentes com perfis abertos nas redes. Usando perfis falsos para ganhar confiança, os suspeitos transferiam as vítimas para outras plataformas, onde instauravam o que a Polícia Civil classificou como "escravização virtual". Por meio de chantagem com dados pessoais, o grupo obrigava o cumprimento de ordens extremas, com transmissões ao vivo de automutilação e crueldade contra animais.
A menina de Naviraí, constrangida virtualmente desde junho de 2026, não era o único alvo. Outra jovem chegou a ser forçada à automutilação em vídeo antes de deixar a chamada, e a investigação atestou que a rede usava enquetes para decidir os próximos ataques. O cenário foi definido pelo coordenador do Ciberlab, Alessandro Barreto, como um "espetáculo de horrores".
Diante da gravidade da organização estruturada no ambiente online, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou, no dia 12 de agosto, a suspensão do recurso de transmissões ao vivo do Discord no Brasil, exigindo da companhia a adoção de salvaguardas para menores.
Em posicionamento oficial, a plataforma alegou investigar e remover rapidamente servidores que incentivam a violência, sustentando que a atividade criminosa investigada foi inicialmente coordenada em outras redes antes de migrar para o Discord. A empresa afirmou estar colaborando com as autoridades na desarticulação dessas redes.
O desfecho do recurso no TJMS colocará à prova os mecanismos de responsabilização e contenção judicial diante de crimes estruturados em massa no meio cibernético.
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