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Receita teme avanço do crime organizado na Rota Bioceânica

Receita teme avanço do crime organizado na Rota Bioceânica
Receita teme avanço do crime organizado na Rota Bioceânica

Superintendente da Receita Federal aponta monitoramento de PCC e Comando Vermelho e cobra integração de órgãos antes da operação, prevista para 2028

A Rota Bioceânica avança rumo à operação prevista para 2028, mas o país ainda não estruturou um sistema integrado de segurança capaz de impedir que o novo corredor comercial sirva também ao crime organizado. Estratégica para as exportações brasileiras e para o agronegócio de Mato Grosso do Sul, a ligação entre o Brasil e portos do Pacífico preocupa a Receita Federal pelo potencial de atrair organizações que atuam no tráfico internacional.

Segundo o superintendente-substituto da 1ª Região Fiscal da Receita Federal, Erivelto Alencar, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho já monitoram o avanço da rota. A 1ª Região tem sede em Brasília e engloba Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins.

"A Receita recentemente assinou um protocolo com a PRF e com o Ministério Público Federal. A gente precisa disso nacionalmente: integrar as instituições para que a diretriz venha de cima para baixo. Que venha ordem e diretriz, protocolo de integração das instituições, para chegar até a ponta", afirma Alencar.

O superintendente garante que os órgãos de controle que atuam nas alfândegas e nas estradas já compartilham informações de inteligência e ações para interceptar cargas de droga ou contrabando. Ele defende, porém, que essa integração suba na hierarquia das instituições. "Não adianta fazer só na ponta", resume, ao cobrar que a cúpula do governo federal comande um processo que una Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita e Ministério Público Federal.

Alencar ressalva que ainda não há evidência concreta ligando empresas interessadas em operar no corredor a organizações criminosas. O que existe, segundo ele, é monitoramento preventivo diante da estruturação de uma rota comercial nova. "Naturalmente o crime também vai se movimentar e, pela dinâmica, também vai tentar entrar com mercadorias ilícitas e principalmente entorpecente por Porto Murtinho. Nós temos essa preocupação."

A cocaína segue como o principal produto na atuação das facções, mas deixou de ser o único negócio. Conforme Alencar, PCC e Comando Vermelho diversificaram as atividades e passaram a movimentar também eletrônicos, cigarros, medicamentos e produtos emagrecedores. "O crime organizado está preocupado em manter o poder dele, de fato, mas o que eles querem é dinheiro. Eles querem aumentar cada vez mais a capacidade financeira deles."

Essa capacidade financeira, na avaliação do superintendente, torna desigual a disputa com o Estado. "Eles têm o dinheiro. Se querem comprar um veículo para atravessar a cocaína, vão lá e compram. Se eu preciso comprar uma viatura para combater um ilícito, tenho de licitar e preciso ter orçamento público." Para ele, nenhuma instituição isolada consegue enfrentar organizações com esse nível de estrutura financeira.

A estratégia da Receita combina fiscalização de fronteira, inteligência e uma retaguarda capaz de investigar quem está por trás do transporte das cargas. A apreensão na ponta, segundo Alencar, não serve só para retirar a mercadoria ilícita de circulação — fornece informações para chegar aos líderes das organizações. Como exemplo, ele cita uma operação contra contrabando de perfumes que começou com a apreensão de R$ 10 milhões em mercadorias e, a partir das informações coletadas, levou à identificação de R$ 300 milhões em movimentações financeiras de uma organização criminosa — trinta vezes o valor inicialmente apreendido.

Para a abertura do novo corredor, a Receita aposta na gestão de risco e na integração internacional dos sistemas aduaneiros. O sistema Sintia, base internacional de informações, deve permitir que as aduanas conheçam antecipadamente os dados de cargas que circulam pelo Mercosul: uma mercadoria que saia da China, passe pelo porto de Iquique, no Chile, e tenha o Brasil como destino poderá ser identificada antes de chegar ao país, o que permite direcionar a fiscalização para as cargas de maior risco.

Mais de 99% dos operadores atuam regularmente, segundo Alencar, razão pela qual a fiscalização precisa ser seletiva. "Nós não temos como parar cem por cento das cargas." O problema é que a integração ao Sintia ainda é desigual entre os países do corredor: os sistemas da Receita brasileira estão mais de 99% integrados à base, enquanto Paraguai e Chile permanecem em estágio inferior — o que, para a Receita, esvazia a eficiência da gestão de risco brasileira se os vizinhos não avançarem no mesmo ritmo.

O ponto mais sensível, contudo, não está nas estradas. O Centro Integrado de Controle de Fronteira, que deve funcionar em território brasileiro com participação do Paraguai em Porto Murtinho, ainda não começou a ser construído. A Receita considera certo que as organizações criminosas tentarão explorar o novo fluxo assim que ele estiver em funcionamento, e por isso Alencar defende que o combate avance também sobre a inteligência, a integração institucional e o dinheiro que sustenta as facções.

A falta de integração efetiva entre os órgãos de controle e a desorganização estatal, apontam especialistas, ajudam a explicar como quadrilhas nascidas dentro das cadeias, caso do PCC e do Comando Vermelho, se transformaram em organizações mafiosas capazes de lavar lucros em mercados financeiros formais, como a Faria Lima.


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